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05/08/2026
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É uma cena muito comum. Duas crianças discutem porque uma não quer emprestar o brinquedo. Outra reclama que foi excluída da brincadeira. Um grupo
discorda das regras do jogo. Em poucos segundos, um adulto intervém: decide quem está certo, determina a solução e encerra a discussão.
A intenção quase sempre é proteger, evitar sofrimento ou manter a ordem. No entanto, quando resolvemos todos os conflitos pelas crianças, retiramos delas uma das maiores oportunidades de aprendizagem da infância: aprender a conviver. Conviver não significa viver sem conflitos. Significa aprender a enfrentá-los. O sociólogo Georg Simmel (1983) afirmava que o conflito faz parte da própria vida em sociedade. Para ele, não existe convivência verdadeira baseada apenas na harmonia. Pessoas que convivem pensam diferente, desejam coisas diferentes e, inevitavelmente, entram em desacordo. O conflito, longe de ser apenas algo negativo, é justamente o caminho que permite explicitar diferenças, negociar interesses e construir novos acordos.
Essa ideia vale também para a infância. Quem observa atentamente um grupo de crianças percebe que elas discutem por muitos motivos: querem o mesmo brinquedo, discordam das regras da brincadeira, disputam um papel no faz de conta, querem ser as primeiras da fila ou simplesmente entendem uma situação de maneiras diferentes. Para os adultos, muitas dessas situações parecem pequenas ou até desnecessárias. Para as crianças, porém, são profundamente significativas. É nesses momentos que elas estão aprendendo sobre justiça, amizade, liderança, cooperação, respeito e pertencimento. O conflito também educa.
A pesquisadora Adriana Borba mostra que os adultos costumam intervir rapidamente nos conflitos infantis porque os enxergam como algo que precisa ser
eliminado. Porém, quando fazem isso o tempo todo, acabam impedindo que as crianças desenvolvam competências fundamentais. Resolver um conflito exige muito mais do que decidir quem tem razão.
A criança precisa aprender a ouvir o outro, explicar seu ponto de vista, defender suas ideias sem agredir, compreender diferentes perspectivas, negociar
soluções, lidar com a frustração quando não consegue tudo o que deseja e reparar os danos quando erra. Nada disso se aprende por meio de discursos. Aprende-se vivendo.
Borba ressalta que, quando recebem tempo e oportunidade, as próprias crianças frequentemente conseguem encontrar soluções criativas e satisfatórias para todos. Muitas vezes, fazem acordos que nenhum adulto imaginaria. Por isso, a intervenção adulta deve ser cuidadosa. Nem sempre ajudar significa
resolver. As crianças são mais competentes do que imaginamos
O sociólogo da infância William Corsaro revolucionou a forma de compreender as relações infantis ao demonstrar que as crianças não são apenas
aprendizes passivas do mundo adulto. Elas constroem suas próprias culturas, organizam seus grupos, criam regras, negociam significados e reinventam
continuamente suas formas de convivência.
Em suas pesquisas, Corsaro observou que os conflitos aparecem com frequência justamente entre amigos. Isso pode parecer contraditório, mas revela algo
importante: amizades verdadeiras também são feitas de divergências. As crianças discutem porque a brincadeira importa. Discutem para defender uma ideia, negociar um personagem, modificar uma regra, decidir quem participa ou reorganizar o grupo.
Esses momentos não enfraquecem necessariamente a amizade. Muitas vezes, fazem exatamente o contrário: fortalecem os vínculos, ensinam respeito mútuo e tornam o grupo mais organizado. O conflito, portanto, não representa o fim da brincadeira. Ele faz parte dela. A ansiedade é dos adultos Para muitos pais, é difícil assistir ao filho triste, frustrado ou envolvido em uma discussão. É natural querer resolver rapidamente. Mas existe uma pergunta importante que vale fazer antes de intervir: Meu filho realmente precisa que eu resolva isso ou precisa que eu acredite que ele consegue resolver?
Essa diferença muda completamente nossa postura. Confiar não significa abandonar a criança!
Confiar significa permanecer por perto, acolher quando necessário e oferecer segurança para que ela tente encontrar uma solução. Às vezes, basta esperar alguns minutos. É impressionante como muitos conflitos infantis terminam da mesma forma que começaram: depois de uma conversa, uma nova combinação ou até uma nova brincadeira.
Quando o adulto interfere imediatamente, a criança perde a oportunidade de experimentar esse caminho. O papel do adulto é apoiar, não substituir
Isso não significa deixar as crianças sozinhas diante de qualquer situação. Há momentos em que a intervenção é indispensável: quando existe violência
física, humilhação, exclusão persistente, bullying ou quando alguma criança não consegue interromper comportamentos que colocam os colegas em risco.
Mas, na maioria das situações do cotidiano, o melhor caminho não é oferecerrespostas prontas. É oferecer perguntas. Em vez de dizer:
— "Faça isso."
Podemos perguntar:
— "O que aconteceu?"
— "Como você acha que pode resolver?"
— “Você pode conversar com o(a) seu (sua) amigo(a)?
__"O que seu amigo está sentindo?"
— "Existe outra solução que agrade aos dois?"
Essas perguntas ajudam a criança a pensar, refletir e assumir responsabilidade
pelas próprias escolhas. Pouco a pouco, ela desenvolve autonomia para enfrentar novos desafios sem depender sempre da mediação adulta. O papel do adulto é compreender que a criança ainda está aprendendo a se relacionar. Na infância, é natural que as reações sejam impulsivas: diante da frustração, da raiva ou da sensação de injustiça, a criança pode chorar, gritar, acusar o colega ou dizer que nunca mais será amiga dele. No entanto, quando o adulto resiste à tentação de resolver imediatamente o problema e oferece tempo, escuta e acolhimento, a criança consegue organizar seus pensamentos e emoções. De forma criativa e inteligente, ela vai mobilizando tudo o que já aprendeu sobre amizade, respeito, cooperação e convivência para encontrar
uma solução. Não é raro ouvirmos relatos como: "Meus pais ficaram muito bravos com o meu colega, mas eu também estava bravo naquele momento. Depois eu pensei melhor e a gente voltou a brincar."
Essas falas revelam algo muito importante: as crianças elaboram os acontecimentos, mudam de perspectiva e são capazes de
rever suas próprias atitudes quando têm oportunidade para refletir. Por isso, nem todo conflito exige uma intervenção imediata do adulto. Muitas vezes, o que elas mais precisam é de tempo para pensar, conversar e tentar resolver a situação. É claro que conflitos que envolvam agressões físicas persistentes, humilhações, intimidações ou qualquer forma de violência não devem ser tratados apenas entre as crianças. Nesses casos, é fundamental comunicar a professora e a escola para que a situação seja acompanhada, compreendida e enfrentada em parceria com a família, garantindo a segurança e o desenvolvimento saudável de todos.
Veja também: Bullying e Cyberbullying são interligados na vida do jovem
A escola e a família são parceiras
Quando pais e escola compreendem que os conflitos fazem parte do desenvolvimento, deixam de enxergar cada desentendimento como um problema que precisa ser eliminado. Passam a vê-los como oportunidades educativas. Isso não significa ignorar o sofrimento das crianças, mas ajudá-las a
transformá-lo em aprendizagem.
Quando os pais se sentirem inseguros sobre uma situação, é importante procurar a escola, conversar com os professores e compreender o contexto antes de tirar conclusões precipitadas. Muitas vezes, o que parece um grande problema para um adulto é apenas uma negociação típica entre crianças que já está sendo acompanhada pela equipe pedagógica. A parceria entre família e escola fortalece a confiança na capacidade infantil e evita intervenções desnecessárias que podem enfraquecer a autonomia das crianças.
Confiar também é educar
Criar um filho não é resolver todos os seus problemas.
É prepará-lo para enfrentá-los.
Cada conflito resolvido pela própria criança fortalece sua autoestima, amplia sua capacidade de diálogo, desenvolve empatia e constrói competências que serão importantes por toda a vida.
Crianças que aprendem a conversar, negociar, pedir desculpas, defender seus direitos com respeito e reconstruir amizades tornam-se adultos mais seguros,
cooperativos e emocionalmente preparados para viver em sociedade.
Por isso, da próxima vez que surgir uma pequena briga na brincadeira, talvez o melhor presente que possamos oferecer não seja uma solução imediata.
Seja presença. Escute. Acolha. Faça perguntas. Dê tempo.
E, acima de tudo, acredite.
Porque, muitas vezes, a criança já é capaz de resolver o conflito. Ela só precisa que o adulto confie nisso.