Home
05/08/2025
Autor:
“Por que meu filho só faz o que mando quando estou por perto?”
“Por que ele não organiza suas coisas, mesmo já tendo idade para isso?”
“ Por que minha filha não é autônoma para realizar suas tarefas escoalres?”
Essas perguntas tão comuns nas rodas de conversa entre pais e educadores refletem um incômodo que vai além da rotina doméstica: falamos aqui da construção da autonomia, um processo complexo, gradual e profundamente humano.
Ser autônomo não significa apenas saber se virar sozinho. A autonomia verdadeira nasce quando a criança ou adolescente aprende a agir com responsabilidade, ética e consciência, mesmo quando não há ninguém olhando. É quando o “eu consigo sozinho” vem acompanhado de um “porque entendi o porquê”.
Na primeira infância, a criança vive o que Jean Piaget chamou de anomia, ou seja, a ausência de regras. Ela ainda não compreende que há normas para viver em sociedade. Pouco a pouco, passa à heteronomia, fase em que reconhece que existem regras, mas acredita que vêm de fora, dos pais, da professora, do adulto. É só com o tempo, as experiências e as trocas com os pares que a criança começa a construir a autonomia moral, ou seja, a capacidade de agir não pelo medo da punição, mas por entender os princípios do respeito e da justiça.
Durante a pré-adolescência e adolescência, novas dimensões se somam: a autonomia pessoal (cuidar de si, do corpo, dos objetos), a intelectual (questionar, refletir, argumentar) e a emocional (lidar com frustrações, tomar decisões). É nesse período que a ética kantiana ganha corpo: o jovem passa a agir não mais por impulsos ou ordens externas, mas por princípios que escolheu como universais, o bem, o respeito, a justiça.
Mas esse caminho não é linear. Um adolescente pode ser capaz de elaborar um raciocínio ético sobre justiça social e, ao mesmo tempo, esquecer de levar o lixo para fora. Isso não é incoerência; é parte do processo.
A autonomia não nasce do nada. Ela se constrói na relação com o outro, especialmente com os pais ou cuidadores. A família é o primeiro ambiente socializador e tem papel fundamental no desenvolvimento moral, emocional e intelectual da criança.
Quando os pais fazem tudo pelos filhos, ainda que com boas intenções, roubam-lhes a chance de experimentar, errar e tentar de novo. Quando resolvem os conflitos dos filhos por eles, impedem-nos de desenvolver empatia e estratégias para lidar com o diferente. Quando dizem que querem filhos autônomos, mas controlam cada passo, ensinam a obediência, e não a responsabilidade.
Não se trata de abandonar a criança à própria sorte. Pelo contrário! Trata-se de acompanhar com presença, escuta, exemplo e diálogo, criando um ambiente seguro onde o erro não é punido com humilhação, mas usado como oportunidade de aprendizado.
Se queremos que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia de verdade, precisamos criar contextos intencionais, coerentes e respeitosos com seu tempo de desenvolvimento. A seguir, algumas estratégias que favorecem esse processo:
Oferecer escolhas com discernimento
Permitir que a criança ou jovem escolha entre opções, de lazer, de roupas entre outras, ensina a tomar decisões e a lidar com as consequências delas. No entanto, é fundamental que o adulto tenha clareza sobre quais escolhas são apropriadas para cada faixa etária. Uma criança de 4 anos, por exemplo, pode escolher entre duas roupas previamente separadas ou decidir qual fruta comer no lanche. Já um adolescente de 14 pode opinar sobre a organização do próprio tempo de estudo ou sobre como contribuir nas tarefas da casa. A autonomia não significa ausência de limites, mas sim aprender a decidir dentro de margens seguras.
Atribuir responsabilidades adequadas à idade
Delegar pequenas tarefas cotidianas, como arrumar o quarto, cuidar dos próprios materiais escolares ou ajudar na preparação de uma refeição, desenvolve o senso de responsabilidade e a autoeficácia. Aqui, novamente, o bom senso do adulto é essencial: uma tarefa só contribui para a autonomia se for desafiadora na medida certa e se houver tempo, paciência e incentivo para que a criança ou o adolescente a realizem com apoio, e não com cobrança.
Encorajar a resolução de problemas
Evitar dar respostas prontas e incentivar que a criança pense em alternativas e soluções para os desafios cotidianos fortalece o pensamento crítico, o raciocínio lógico e a ação independente. Perguntas como “O que você pode fazer para resolver isso?” ou “Quais opções temos?” são convites à reflexão e à autonomia intelectual. Também é importante permitir que a criança resolva alguns conflitos que surgem com os seus pares de idade. Alguns tipos de problemas são comuns na infância e as crianças conseguem estabelecer critérios de resolução de conflitos.
Permitir erros e aprender com eles
Errar faz parte do processo. Criar um ambiente onde o erro seja acolhido como oportunidade de aprendizado, e não como fracasso, fortalece a autoconfiança. Quando a criança entende que pode tentar de novo, ela aprende a lidar com frustrações, a persistir e a construir soluções mais criativas e consistentes.
Promover a comunicação aberta e respeitosa
A autonomia também se constrói na escuta. Quando a criança se sente segura para expressar o que pensa e sente, e percebe que suas ideias são consideradas, ela desenvolve autoestima, confiança e aprende a dialogar com empatia. Ouvir ativamente, sem julgamentos e com real interesse, é uma das formas mais potentes de educar para a autonomia relacional e moral.
No entanto, promover a comunicação aberta não significa valorizar apenas a voz da criança. É fundamental que ela também aprenda a ouvir o outro, a respeitar opiniões e sentimentos diferentes dos seus. A comunicação verdadeira é construída no equilíbrio entre falar e escutar, entre ser acolhido e também acolher. Educar para a autonomia é, portanto, ensinar que toda conversa envolve reciprocidade, respeito mútuo e consideração pela presença e pelas emoções do outro.
Oferecer suporte, sem controlar
Estar disponível para orientar, encorajar e acolher, sem invadir ou substituir a ação da criança, é um equilíbrio delicado e necessário. A superproteção pode sufocar a iniciativa e gerar insegurança. Autonomia exige espaço para errar, tentar e acertar, mas com a certeza de que há um adulto atento, pronto para apoiar, e não para controlar.
Diferenciar o que é ser questionador do que é ser desafiador
Um ponto importante é o discernimento entre o comportamento questionador e o comportamento desafiador. Ser questionador é uma habilidade desejável: indica que o sujeito está refletindo, elaborando pensamentos próprios, exercendo sua autonomia intelectual e moral. Já ser desafiador, no sentido negativo, é agir com resistência sistemática, sem respeito, apenas para confrontar ou provocar. O adulto precisa saber acolher as perguntas e os questionamentos genuínos, sem confundi-los com desobediência. Valorizar o pensamento crítico é formar um sujeito autônomo; reprimir toda discordância é formar alguém obediente, mas não necessariamente ético ou responsável
Exemplos práticos:
Para crianças: deixar que escolham, em certas ocasiões, a roupa; permiti-las preparar um lanche simples, incentivá-las a guardar os brinquedos.
Para adolescentes e adultos: delegar tarefas no trabalho, oferecer oportunidades de tomada de decisão, valorizar o diálogo e a escuta ativa.
Importante: a autonomia não nasce pronta. Ela se constrói aos poucos. Por isso, é fundamental respeitar o ritmo de cada indivíduo e oferecer suporte adequado em cada etapa.
Construir autonomia é permitir que a criança e o adolescente exerçam a liberdade com responsabilidade. E liberdade, como bem lembrava Kant, não é fazer o que se quer, mas agir de acordo com princípios que respeitem a dignidade de todos.
Ao fim, não é a criança que obedece sem questionar que revela maior maturidade, mas aquela que reflete, questiona e considera o outro em suas escolhas. É essa criança, esse jovem, que, no futuro, será capaz de gerir sua vida pessoal, afetiva e profissional com ética, coragem e equilíbrio.
Como educadores e famílias, nossa missão é essa: preparar os filhos para não dependerem de nós para fazer o que é certo, mas para, justamente, fazerem o certo porque acreditam nisso!